A SITUAÇÃO DA CRIANÇA NO ANTIGO TESTAMENTO
Nos artigos anteriores, falamos de Jesus, o Messias Criança, que veio realizar a esperança do povo que “andava nas trevas” e nele “viu uma grande luz”. Hoje começamos a abordar a situação da criança no Antigo Testamento, trazendo textos e fatos que revelam as marcas da violência, da opressão e abandono contra elas. Lembramos atitudes e palavras de alguns profetas, que denunciaram atitudes contrárias ao projeto de Javé, o Deus dos pequenos e oprimidos. Não podemos deixar de enfatizar, também, a ação de mulheres ousadas que se mobilizaram em defesa da vida destes pequeninos. Quem não conhece a história narrada pelo escritor sagrado no livro do Êxodo, sobre as parteiras do Egito, que salvaram os meninos, quando a ordem do Faraó era matá-los assim que nascessem? E a história do Menino Moisés, futuro líder libertador do povo hebreu, salvo por mãos de mulheres?
1. Situando os fatos no seu contexto
Para entendermos a situação da criança naquele tempo, faz-se necessário ter presente alguns dados que caracterizam a história do povo de Israel no contexto de outras nações e dos impérios da época, tendo presente sua influência cultural e religiosa na vida do povo. Na época do Êxodo, por volta de 1250 antes de Cristo (a.C), a Palestina, ou seja, a terra de Canaã tinha no seu governo local, os chamados “Reis de Canaã”, mas estava sob o domínio do império Egípcio. O Faraó controlava o povo da região por meio da cobrança de altos tributos (impostos) e da ideologia que sustentava o sistema social. Ele se apresentava como filho de Deus; portanto, sua ação, no campo político e econômico, era legitimada pela religião. Em Canaã, os Reis locais, reproduziam o mesmo sistema explorador e opressor dos impérios. No tempo do tribalismo, o povo de Israel fez a experiência de uma sociedade igualitária, segundo o projeto de Deus, onde os direitos de todos eram respeitados. Já, no tempo da monarquia, prevalecia o direito do rei, que se colocava acima da lei de Deus e do país e se atribuía o direito de decidir sobre a vida de todos: crianças, jovens e adultos (1 Sm 8,1-18).
- A dura realidade das crianças nesse contexto
Crianças eram vítimas de decretos de morte, para conter o crescimento da população. Ao ver que o povo hebreu se tornava cada vez mais forte e numeroso e poderia rebelar-se contra ele, Faraó, o soberano do Egito, os sobrecarregou com trabalhos forçados, para impedir que continuassem se multiplicando; mas, quanto mais oprimia, mais o povo crescia (Ex 1,8-14). Foi, então, que ele decretou a morte dos meninos, encarregando as parteiras dessa terrível tarefa. As meninas deveriam viver para gerar filhas e filhos para servirem ao Rei, que podia dispor deles, conforme seu interesse (Ex 15, 15-22; 1 Sm 8,11-13). Mas as mulheres reagiram contra essa Lei de morte, como veremos mais adiante.
Crianças eram usadas nos sacrifícios de fundação. Eram enterradas nos fundamentos de casas, palácios e templos. Tratava-se de uma prática da religião em Canaã, para invocar a proteção dos deuses. Exemplo disso foi o que aconteceu na reconstrução da cidade de Jericó e do seu templo, cujos alicerces, custaram a Heliel, a vida de dois de seus filhos, o primogênito e o filho caçula (1 Rs 16, 34).
Crianças eram sacrificadas para conter a ira dos deuses, em tempos de crise, guerra e tragédias. Tais práticas da tradição cultural dos cananeus foram assimiladas pelo povo hebreu. Assim, o rei Acab, imitando o comportamento de outros reis de Israel, sacrificou seu filho, conforme o costume abominável de outras nações, contrariando a prática de seu antepassado Davi, aprovada por Deus (2 RS 16,2-3). Não faltaram, porém, vozes proféticas, condenando esse tipo de ação contra os inocentes, como as de Ezequiel e Jeremias, condenando tais práticas desumanas (Ez 16, 14-22; 36,13; Jr 7,6).
Crianças geradas no culto da fertilidade eram discriminadas e exploradas no trabalho ou abandonadas á própria sorte. Tratava-se do culto dos cananeus, promovido pelo poder público, que favorecia o acesso aos deuses, através da “prostituição sagrada”. Era uma forma de gerar mais filhos e filhas para trabalhar e guerrear para o rei. Ao mesmo tempo, crescia o número de crianças abandonadas. Tal culto foi condenado por Deus Javé, pela boca de profetas, como, por exemplo, desintegrava a família, marginalizava a mulher, violava o sentido do amor e desvirtuava o sentido do divino e do sagrado (Os 1,2-9).
Crianças órfãs e viúvas se multiplicavam quando o povo de Israel era governado pelos reis. Começaram, então, a surgir muitos pobres, entre eles, grande número de órfãos e viúvas. Estas crianças e viúvas eram frequentemente exploradas e não tinham a quem recorrer, conforme denuncia o profeta Isaías: Os seus chefes “não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva, nem chega até eles” (Is 1, 23; 10,2). Viviam abandonadas e só podiam contar com a caridade alheia. Mas eram tantas, que a solidariedade do povo não dava conta de garantir-lhes uma vida com dignidade (Dt 15, 4-8).
Crianças e mães eram marginalizadas. Depois do exílio da Babilônia (587-
3. Um destaque à resistência e ousadia de mulheres fiéis a Deus Javé, em favor da criança.
Percorrendo a Bíblia, percebemos uma mística que motiva e impulsiona à defesa da vida da criança e de todas as categorias de pessoas mais fracas e oprimidas, ao longo da historia do Povo de Deus. Uma minoria fiel ao projeto de Deus, sempre resistia, era solidária e lutava para garantir proteção à vida dos pobres e excluídos, entre eles, as crianças. Nesta perspectiva, retomamos os fatos que ficaram na memória do povo, pelo seu valor simbólico, sobre a atuação corajosa de Sefra e Fua, parteiras dos hebreus no Egito acima citadas, bem como a iniciativa de Joacab e Miriam, mãe e irmã de Moisés. Ao salvar a vida das crianças, estas mulheres possibilitaram a saída do povo da escravidão e sua caminhada libertadora rumo à Terra Prometida. Enquanto o Faraó queria matar, as mulheres resistiram e se mobilizaram em defesa da vida. Elas se insurgiram contra a ordem do rei, se organizaram e decidiram enfrentar o poder do Faraó. Agiram com criatividade e determinação, porque estavam amavam a Deus e estavam preocupadas com a preservação da vida e do futuro do seu povo (Ex 1,15-22; 2,1-10). Este fato mostra que Deus está sempre do lado dos que têm a vida ameaçada, como também, do lado de quem os defendem. Essa história de resistência contra a política de morte do Faraó foi tão significativa para o povo de Deus, que era contada de geração em geração. Cremos que a proesa destas mulheres ficou registrada no livro do êxodo, para despertar em todos a consciência do valor da vida humana e servir de motivação para que nos empenhemos na promoção e defesa da vida, de modo especial, dos mais fracos e indefesos.
3. Confrontando com a realidade da criança em nosso tempo
O tratamento dado às crianças no tempo da Bíblia deve provocar em nós mal estar e indignação. Olhando, porém, para a realidade do nosso tempo, podemos nos perguntar: Qual a nossa reação frente a tantas formas de violência e opressão cometidas contra elas no âmbito da família e da sociedade? Não podemos ficar indiferentes diante do que acontece em todo lugar, sobretudo nas periferias das grandes cidades, onde vivem as famílias mais pobres. Inúmeras são as crianças e adolescentes, vítimas da fome, da falta de assistência à saúde e de acesso à Escola; do tráfico de seres humanos, da falta de um lar e fadadas ao abandono nas ruas das nossas cidades, correndo riscos de toda sorte. Em nosso tempo, tornaram-se simbólicos, os fatos como os que ocorreram com o menino Joilson, morto a pontapés, por um militar aposentado e com as crianças assassinadas na frente da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Enquanto muitos não se sensibilizaram com estes acontecimentos, diversas organizações da sociedade e da Igreja reagiram fortemente contra o extermínio destes menores.
Hoje, cresce a consciência acerca dos direitos da criança e do adolescente e, ao mesmo tempo, da necessidade de acolhermos com carinho estes nossos irmãos menores, defendendo seus direitos. Neste sentido, a Lei 8069 de 13 de julho de 1990, que instituiu no Brasil o Estatuto da Criança e do Adolescente, representa um avanço significativo, apesar das críticas e restrições de muitos. Cabe a cada um de nós, empenhar-nos para conhecer, divulgar e exigir que o Estatuto seja levado à prática. Importa somar força no grande mutirão na defesa e promoção da vida destes pequenos, participando das inúmeras iniciativas solidárias da sociedade e da Igreja. Assim, estaremos contribuindo para garantir a todos uma vida digna de filhos e filhas de Deus e um futuro mais promissor para o país.
Aguarde nosso próximo artigo, onde veremos outras histórias que revelam o carinho de Deus, pelas crianças. Se lhe interessar, poderá ir mais além neste assunto, lendo, por exemplo, o fato narrado no livro do Gênesis, capítulo 21,1-21 e perceber a reação de Deus, frente ao grito da criança chamada Ismael.
Ir. Teresa Nascimento, CIIC
Fontes
- Mesters, Fr. Carlos, Meninos e Meninas, CEBI, A Palavra na Vida 162, p 6-9.
- Cadernos de Estudos Bíblicos, 29, Vozes, Petrópolis, RJ, p. 33-35






