Continuamos falando sobre o tema do Mês da Bíblia 2011, conforme prometemos no artigo anterior. Vamos ver mais de perto uma das dificuldades enfrentadas pelo povo e os sinais da presença atuante de Deus na sua caminhada.
Na travessia do deserto, o povo sente fome, revolta-se e murmura contra seu líder Moisés (Ex 16,2-3). A fome traz saudades do tempo da escravidão no Egito. Apesar do sofrimento por causa da dureza dos trabalhos forçados naquele país, muitos se queixavam dizendo que lá, pelo menos, tinham comida em abundância. Será que, vivendo na condição de escravos, as pessoas tinham, realmente, fartura de pão e de carne? Deus, porém, que ama seu povo e sempre ouve o clamor dos pobres e oprimidos, promete fornecer o alimento necessário para a travessia. Porém, coloca uma condição muito importante: o povo deve aprender a vencer a tentação de acumular. É o que traz o capítulo 16 do livro do Êxodo.
1. Como o escritor sagrado narra este fato?O povo parte de Elim, um oásis onde há abundância de água e árvores e não falta comida. Já está no 15º dia do segundo mês da caminhada pelo deserto. Pouca comida e muita fome. Daí as queixas e murmurações contra Moisés. Deus promete fazer chover do céu, pão e carne. Isto será um teste: poderão recolher maná para um só dia. Na sexta-feira, deverão recolher também o necessário para o sábado, dia do descanso no qual não se pode trabalhar, nem para preparar o alimento. Moisés e Aarão levam o recado de Deus ao povo: que cada um recolha apenas o necessário para um dia, pois para os outros dias Deus proverá. Para os que desobedeceram e caíram na tentação de acumular só para si, o maná apodreceu. A quem recolheu apenas o suficiente, nada faltou.
2. O maná e as codornizesO que é o maná? O Maná, em hebraico man hû, era algo muito comum em alguns dos oásis do deserto. Há duas explicações possíveis. Alguns estudiosos da Bíblia afirmam que é produzido pela secreção de insetos que se alimentam de uma planta chamada tamarix. Trata-se de uma substância branca, doce e fina como geada que, exposta ao ar seco e ao frio, se solidifica, mas derrete e desaparece com o sol e o calor. Outros dizem tratar-se de uma substância resinosa e espessa de uma árvore da região central do Sinai, semelhante a uma semente de coentro. Era colhida, moída e cozida e com ela se fazia uma comida semelhante ao bolo. Ainda hoje, os beduínos, em alguns meses do ano, encontram esta substância no deserto e usam para fazer pão.
Portanto, o maná era algo do cotidiano, mas para o povo de Deus, em situação de fome e carência de tudo, era considerado algo extraordinário e mais um sinal da ação da providência divina. A linguagem dessa narrativa expressa a fé e a emocionada ação de graças a Deus, ao falar que o maná cobre o solo (16,4.13), querendo dizer, é abundante; que desce do céu, isto é , o pão é enviado por Deus; e sustentou o povo durante 40 anos, isto é, ao longo de toda a caminhada pelo deserto (16,35).
Muito tempo depois, por volta do ano 50 a. C, o escritor do livro da Sabedoria faz uma releitura desse acontecimento em linguagem poética, para reviver e partilhar com as novas gerações, essa experiência do amor gratuito e incondicional de Deus: “A teu povo, nutriste com o alimento dos anjos, proporcionando-lhe, do céu, graciosamente, um pão de mil sabores, ao gosto de todos. Este sustento manifestava aos teus filhos tua doçura, pois servia ao desejo de quem o tomava e se convertia naquilo que cada um queria” (Sb 16,20-21).
E as codornizes? São pássaros que aparecem em certos períodos do ano, na península do Sinai. Nessa região, bandos de codornizes, depois de atravessar o mar, chegando ao deserto muito cansadas, pousam próximo às tendas dos beduínos e são facilmente abatidas em grande quantidade. Depois de muito tempo, o povo faz a releitura deste fato e vê aí, a mão a de Deus, que os conduz e protege com amor e carinho especial.
3. Contextualizando e aprofundando o textoConquistar a liberdade é um processo difícil e doloroso. Contudo, nos momentos de carência até do indispensável para sobreviver como a comida, o povo vem com a exigência de soluções imediatas e resiste pagar o preço pela liberdade tão sonhada. Por acaso, já teriam esquecido a dureza com que foram tratados pelo Faraó do Egito e seus capangas? O que se passa na mente e no coração de muitos? ‘Saudades’ da escravidão, a situação com a qual, talvez, já haviam se acomodado ou ‘medo’ da liberdade, cuja conquista causa insegurança, porque exige avançar rumo ao desconhecido?
No fato do maná, Deus coloca o povo à prova. Quer experimentar e ver se as pessoas observariam ou não a sua lei (Ex 16,4). Ele enviou o maná, todos os dias. Todavia, teve gente que, por ganância e sem pensar na necessidade dos outros, ajuntou demais e não passou no teste (Ex 16,16. 20). Então, o que aconteceu? Os vermes comeram o que sobrou. Essa atitude não é aceita por Deus, pois, com certeza, o que sobrou na casa uns, faltou para outras famílias.
No Egito, o sistema econômico do Faraó estava baseado no acúmulo. Vejam o que diz o texto bíblico: “Em todo o país, faltava pão, pois a fome assolava a terra do Egito e de Canaã. José (vice-rei) acumulou todo o dinheiro que havia na terra do Egito e na terra de Canaã, em troca dos mantimentos que eles compravam e entregou todo o dinheiro no palácio do Faraó” (Gn 47, 13-13). O texto continua dizendo que quando acabou o dinheiro do povo, eles tiveram que entregar, em troca de mantimentos, seus rebanhos, suas terras, e por fim entregaram-se a si mesmos como escravos (Cf Gn 47,15-26).
4. A proposta de Jesus vai na contramão dos sistemas econômicos do seu tempo e de hoje.
Na Galiléia no tempo de Jesus, a terra estava acumulada nas mãos de poucos. O povo era reprimido pelo império romano e explorado mediante a cobrança de altos impostos para o imperador e para o templo de Jerusalém. A pobreza e a miséria eram grandes. Muitos viviam preocupados com as necessidades como a comida e o agasalho. Para garantir a própria sobrevivência, procuravam acumular o que podiam.
Jesus é contundente ao condenar o acúmulo de bens: “Não ajunteis riqueza aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde os ladrões assaltam e roubam” (Mt 6,19). E alerta as pessoas, para que não se preocupem tanto com o dia de amanhã, ou seja, com o futuro, a ponto de chegar a acumular. Aconselha todos a confiarem na providência de Deus Pai, que vela com carinho por todos nós, seus filhos e filhas, porque “ele sabe do que necessitamos” (Mt6,32) . E manda olhar os pássaros e as flores do campo, que não trabalham, contudo, Deus cuida deles (Mt 6,25-34).
Na multiplicação dos pães, acontece o milagre da partilha (Mt 14,15-21; Mc 6,34-44). Jesus ensina a organizar a prática da partilha, para que não falte nada a ninguém. Se no mundo houvesse justa distribuição da terra, renda e da produção, não haveria fome e a mesa de todos seria farta.
No Pai Nosso Jesus manda pedir ao Pai, o ‘pão nosso’ de cada dia. Quem reza Pai nosso, deve se preocupar com o “pão nosso”, pão para todos. A Eucaristia consagra e celebra o pão partilhado e denuncia a comunidade que não pratica a partilha (1 Cor 11,17-34). Por isso mesmo, enquanto houver fome no mundo, todos os dias poderíamos rezar: Pai, daí pão a quem tem fome e fome de justiça, coração generoso, mãos abertas à prática da solidariedade e da partilha, a quem tem pão.
Os primeiros cristãos souberam praticar este ensinamento, conforme a palavra do canto: “Os cristãos tinham tudo me comum, dividiam seus bens com alegria. Deus espera que os dons de cada um se repassem com amor no dia-a-dia” (cf. At 2,44-45; 4,32-35).
- 5. Confrontando com a realidade atual
A história do maná é muito conhecida, porém, sua mensagem, por vezes, passa despercebida, apesar de ser tão atual. O resultado da ganância e da acumulação dos bens e das riquezas de um país na mão de poucas pessoas ou de alguns países é a pobreza, fome e miséria e exclusão da maioria. Esta realidade é muito atual. Basta olharmos para vários países da África. Historicamente, foram explorados por alguns poderosos e por países ricos, onde grande parte da população está morrendo de fome e clama por socorro.
Se hoje os MCS anunciassem que na próxima semana iria faltar arroz, feijão e café e outros alimentos, o que iria acontecer? Todo mundo iria comprar estes produtos nos supermercados. Com certeza, iríamos acumular em nossas casas, para poder atravessar o tempo da falta. A tendência de acumular, ajuntar sempre mais, parece estar enraizada em nós, porque isto nos dá segurança. Primeiro, pensamos em nós mesmos, só depois nos outros. Por que tanto desejo de acumular? Qual é o vazio que muitos querem preencher, acumulando dinheiro, bens? Todos não seriam mais felizes, se soubéssemos partilhar?
Jesus ordena: “Procurem primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todo o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6,33). Procurar o Reino de Deus e a sua justiça contentar-se com o necessário, ser solidário, partilhar. Não colocar a própria segurança nos bens materiais, pois “não se pode servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13).
Continue se aprofundando no assunto, por meio da leitura do material elaborado para o Mês da Bíblia 2011, outros textos relacionados abaixo. Se quiser ler também os capítulos 17 e 18 do livro do Êxodo, você estará se antecipando no conhecimento do assunto do nosso próximo artigo. Nele, falaremos de outras carências do povo na caminhada pelo deserto e das formas de superação, em busca do sonho da terra prometida, terra da liberdade e da vida em abundância para todos. Aguarde-nos.
Ir. Teresa Nascimento, CIIC
Bibliografia
Equipe do SAB, Serviço de Animação Bíblica, Aproximai-vos do Senhor, Estudo do Êxodo 15,22-18,27, Mês da Bíblia – 2011, Texto para o povo, Paulinas, São Paulo, 2011.
- Lopes Mercedes, Deus liberta escravos e faz nascer um povo, EX 15-18, CEBI/Paulus, 2011.
- Orofino Francisco, Mesters Fr. Carlos, A caminhada do povo de Deus – Desafios da travessia, EX 15-18, CEBI, São Leopoldo, RS, 2011.
- A Formação do Povo de Deus, COL. Tua Palavra é Vida, CRB/Loyolas, 1990
- Marques, Ma. Antônia, Shigeyuki Nakanose, svd, A Caminhada no deserto, , Entendendo o livro do Êxodo 15, 22-18,27, Centro Bíblico Verbo, Paulus, São Paulo, 2011.
- Bohn G. Ildo,(Org.)- Uma Introdução à Bíblia, Formação do Povo de Israel, Vol II, CEBI-Paulus,2002






