No deserto, onde há escassez de água, uma dificuldade muito comum é o racionamento de água e a sede. A narrativa da travessia do deserto descreve, entre outras dificuldades enfrentadas pelo povo, a falta de água, problema que aparece em duas passagens do livro do Êxodo (Ex 15,22-27;17,1-7). A primeira foi quando o povo teve sede, saiu em busca de água e só encontrou águas amargas. Indignado, começou a murmurar contra Moisés. O fato foi tão marcante, que deram ao lugar, o nome de Mara, isto é, Amargosa (Êx 15,23). Neste artigo, vamos dar destaque à narrativa de Êx 17, 1-7. Aqui, nos deparamos, outra vez, com a mesma dificuldade: a falta de água. E o povo não cessa de reclamar.
Acompanhemos a sequência da narrativa
- O Êxodo 17,1-3 descreve a partida do povo de Israel para o deserto de Sin, até acampar em Rafidim, onde não encontra água para beber. Fica revoltado, discute e murmura contra Moisés.
- Nos versos 4-6a, Moisés, diante da revolta do povo e com medo de ser apedrejado, clama a Deus, perguntando “o que fazer com este povo”. Javé manda Moisés levar consigo os outros líderes e bater com sua vara na rocha, que dela sairá água para o povo beber.
- Finalizando, os versos 6b-7 falam que Moisés bateu na rocha e a água apareceu. Ele deu àquele lugar o nome de Massa e Meriba, por causa da discussão e porque ali, os filhos de Israel colocaram Deus à prova.
Aproximando-nos mais do texto
Nesta narrativa, aparecem estes personagens: O povo, Deus Javé, os anciãos e Moisés. As palavras chave, que mais chamam nossa atenção: água, sede, murmurar, clamar, apedrejar, vara e rocha. A reação do povo diante do problema da sede e da falta de água: discussão, murmuração contra Moisés, chegando a duvidar do seu Deus.
Situando o texto no seu contexto
Diante do problema da sede, o povo murmura contra Moisés, entra em crise de fé e se pergunta: “Deus está no meio de nós ou não?” (Êx 17,7). Será que eles esqueceram aquela certeza fundamental da sua fé expressa no nome de Javé: “Eu sou/estou que estou”. É como se Deus dissesse a Moisés: Estou pra valer, com você e com seu povo nessa caminhada. Entretanto, o povo se deixa abater pela dúvida: Será que Ele é o mesmo Javé que nos libertou da escravidão do Egito? Moisés censura o povo, dizendo que essa queixa não é contra ele, mas contra seu Deus. Contudo, clama a Javé, e a falta de água é solucionada. Essas murmurações representam as muitas queixas do povo de Deus por mais vida ao longo da sua história.
Este texto recebeu sua versão final no tempo pós-exílico, em torno do ano 400 a.C. Nesse período, o povo era governado pelos sacerdotes, através do Templo e da Lei, que determinava quem era puro e quem estava impuro (Lv 11-15 e 17-26). Só mediante ofertas e sacrifícios de purificação, a pessoa conseguia se tornar pura, e voltar a participar do Templo e da vida comunitária.
A exigência de ofertas para os sacrifícios, além do pagamento muitos dízimos, eram algumas das causas do empobrecimento do povo, do crescimento das suas dívidas, da discriminação e a exclusão. Tudo isso gerava muitas queixas no meio do povo, por falta até do necessário para viver, como a água, alimentação, moradia, segurança, enfim, falta de condições básicas para uma vida digna (cf. Jo 24). Nesse contexto é escrito Ex 17,1-7, para responder à dúvida do povo: “Javé está no meio de nós ou não está?”. Passo a passo, caminhando pelo deserto, o povo reflete sobre os fatos que marcaram sua história. O deserto é lugar do silêncio, propício para ouvir a voz de Deus e perceber os sinais de sua presença. E a certeza de que Deus caminha com eles cresce e vence a murmuração, o desânimo e a descrença.
Confrontando o texto com a realidade atual e trazendo esta Palavra para o chão da nossa vida.
A água tem importância fundamental em nossa vida. A falta de água causa muitos transtornos. Quem vive em regiões secas sabe o que significa não ter água. É muito doído. A natureza fica triste. Tudo fica estorricado e sem vida: pessoas, plantas e animais, pois todas as formas de vida dependem de água.
O que significa não ter água na casa? Como ulitizamos a água? Os mananciais estão mal conservados, alguns desaparecendo. Muitos rios e fontes são envenenados por agrotóxicos utilizados na agricultura ou por esgotos domésticos e detritos industriais. É a criatura humana, destruindo a criação de Deus. Como nos sentimos diante de rios, córregos e fontes que estão secando ou sendo inutilizados pela ação humana? Quando as consequências destes desmandos nos atingem, não adianta, apenas, reclamar, apelar para Deus.
Olhando para a situação do mundo atual, não podemos ficar indiferentes diante das tragédias da natureza ferida, que se rebela contra nós; da fome, falta de saneamento básico, falta de assistência à saúde, da pobreza e miséria causadas pela injustiça e exploração. Enquanto isso, vemos que uma minoria vive no luxo e na abundância à custa do sofrimento da maioria. Frente a essa realidade, quem já não se fez perguntas como estas: Onde está Deus? Será que ele não vê o sofrimento dos pobres? Adianta confiar nele? Deus não abandona a sua criação. Ele continua sendo o Senhor da história, mas respeita a liberdade humana.
A Bíblia é Palavra de Deus, viva, eficaz e sempre atual. A palavra dirigida a Moisés mostra que Deus ouve o clamor do seu povo e sempre vem em seu socorro: “Eis que estarei diante de ti, sobre a rocha (em Horeb): ferirás a rocha, dela sairá água e o povo beberá”! (Ex 17,6). A Palavra de Deus nos dá a certeza de que Ele é o Deus da Vida, o Deus conosco, que caminha ao nosso lado. Está sempre em nosso meio, sendo nossa força e proteção. Ele nos garante sua presença em todos os momentos, especialmente quando sofremos e reclamamos contra as dificuldades e situações difíceis que atingem a cada um de nós, como também, os grupos e classes sociais menos favorecidos. Seu projeto é que todas as pessoas tenham vida em abundância, como disse Jesus (Jo 10,10).
Como nós e nosso povo estamos reagindo diante das dificuldades e dos problemas coletivos? O que estamos fazendo? Não basta reclamar, ficando cada um fechado e acomodado no seu ‘pequeno mundo’. É preciso ter fé, dirigir-se a Deus, rezar, e, também, descruzar os braços e agir, fazendo a nossa parte. Importa ser solidário, unir forças, organizar-se, assumir o compromisso com a causa da promoção e defesa da vida das pessoas, da natureza e meio ambiente.
Se você quiser voltar a encontrar-se conosco no próximo artigo, está convidado/a a ler o texto bíblico de Êx 18, 1-27. Coloque atenção especial no conselho de Jetro a Moisés, que está nos versos 13-27, procurando descobrir o que esta Palavra fala para nós hoje. A oração que segue nos dá a certeza de que, apesar dos sinais de morte que nos rodeiam, a última palavra é da vida, pois acreditamos que o nosso Deus é o Deus da Vida.
Ir. Teresa Nascimento, CIIC
SALMO DA VITÓRIA DA VIDA
Dá-nos, Senhor, confiança na vitória da vida.
Se forem muitas as manchetes negativas,
Abre os olhos para o heroísmo de tantos irmãos e irmãs,
Para os jovens que não desistiram de ter ideal,
Para as pessoas idosas que não se aposentaram do trabalho do teu Reino.
Nosso Deus é o Deus da vida!
Ele renova todas as coisas
E nos torna vencedores de todo o mal.
Dá-nos, Senhor, confiança na vitória da vida,
Confiança e fibra para o bom combate,
Porque no dia da conquista final,
Queremos estar lá, no meio dos teus,
Celebrando a Verdade, a Paz e a Justiça.
Nosso Deus é o Deus da vida!
Ele renova todas as coisas
E nos torna vencedores de todo o mal.
Dá-nos, Senhor, confiança na vitória da vida,
E uma alegria pura, forte, cativante,
Para comunicar o segredo que disseste ao coração:
Tu és o princípio e o fim. Não há nada a temer!
Nosso Deus é o Deus da vida!
Ele renova todas as coisas
E nos torna vencedores de todo o mal.
Autor Desconhecido
Bibliografia
Equipe do SAB, Serviço de Animação Bíblica, Aproximai-vos do Senhor, Estudo do Êxodo 15,22-18,27, Mês da Bíblia – 2011, Texto para o povo, Paulinas, São Paulo, 2011.
- Lopes Mercedes, Deus liberta escravos e faz nascer um povo, Ex 15-18, CEBI/Paulus, 2011.
- Orofino Francisco, Mesters Fr. Carlos, A caminhada do povo de Deus – Desafios da travessia, EX 15-18, CEBI, São Leopoldo, RS, 2011.
- A Formação do Povo de Deus, COL. Tua Palavra é Vida, CRB/Loyolas, 1990
- Marques, Ma. Antônia, Shigeyuki Nakanose, svd, A Caminhada no deserto, , Entendendo o livro do Êxodo 15, 22-18,27, Centro Bíblico Verbo, Paulus, São Paulo, 2011.
- Bohn G. Ildo,(Org.)- Uma Introdução à Bíblia, Formação do Povo de Israel, Vol II, CEBI-Paulus,2002






